Cabeção de Nego

O seu sagrado é o meu profano

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Profanação do sagrado: taí uma das expressões preferidas de muitos religiosos: no Brasil ela eventualmente evocada para censurar obras de arte, publicações de mídia, espetáculos… e com um antiquado fundamento legal: o artigo 208 do CP.

É um trambolho legal, como já foram os extintos artigos do mesmo CP que puniam o adultério com cadeia ou que estipulavam que uma adolescente de 14 anos para cima tinha o direito de deixar de ser virgem limitado pela autorização dos pais ou como ainda é a proibição de xingar (sim, xingar alguém também é crime, previsto no mesmo código que proíbe a zombaria quanto a elementos de culto religioso).

Na prática, na prática mesmo, não se imagina um indivíduo sendo preso apenas porque mandou a vizinha pra puta que a pariu em uma discussão sobre em que parte da calçada o carro de um dos dois devia estar estacionado: mas pelas letras frias da lei é possível punir alguém apenas por ter xingado outro.

Do mesmo modo, se a lei que proíbe a zombaria contra elementos de culto religioso fosse levada a risca pelos tribunais (que graças a Exu Cristo costumam ser povoados por pessoas mais doutas que o Congresso) metade da blogosfera tava encarcerada.

O problema é que vez por outra alguém, geralmente muito poderoso, resolve lembrar da existência destes trambolhos, como no caso do pobre coitado de um jogador argentino que pensou que estando num estádio com mais de 60.000 pessoas entre jogadores, torcedores, repórteres, policiais e et cetera que se xingavam unânime e mutuamente também teria direito a soltar uns xingos.

No caso do vilipêndio religioso há casos recentes e isolados no Brasil de Playboys sendo recolhidas, exposições de arte sendo suspensas, desfiles de escola de samba sendo amputados. Tudo em nome do direito que o sagrado tem de não ser profanado.

Acontece que o sagrado não é um conceito lá muito objetivo, eu não vejo nada de sagrado na sua Pietá barata de gesso vagabundo comprada numa quermesse sem graça de Caxias do Sul. Não vejo nada de blasfêmo em dizer que o papa vai para o inferno ou em compor uma música mandando o “pouco útil” cardeal de Roma às favas. Vejo muito mais sacralidade em um The Rover ou em um Maracanã lotado e para mim blasfêmia mesmo é o Chimbinha dizendo que foi influenciado pelo Mark Knofler.

Acontece que eu sequer tenho como ridicularizar um objeto de fé religiosa. Como tornar mais ridícula, por exemplo, a crença em que uma mulher virgem deu, há 2000 anos, à luz uma criança cujo pai é a prória criança na sua forma espiritual? Como ridicularizar a crença de que Maomé saiu voando de uma pedra há 1300 anos aproximadamente? Como ridicularizar a crença em que um homem tocou com um pedaço de pau no mar Vermelho e as águas do mar imediatamente se dividiram abrindo uma estrada no meio?

Acontece que eu acho que este medo todo que boa parte dos religiosos têm de ver suas crenças serem ridicularizadas é que na verdade eles têm consciência de que é impossível ridicularizar suas crenças: o rei está nú, expor as fotos de vossa majestade neste estado não vai deixá-lo mais pelado mas provavelmente vai deixá-lo muito puto.

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Written by Daniel

maio 25, 2011 às 1:19 pm

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