Cabeção de Nego

Religiosidade e moralidade (I)

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Eu costumo achar que a posição das Testemunhas de Jeová contra as transfusões de sangue é um dos mais perfeitos símbolos do equívoco que é a associação entre religião e moralidade.

Como as definições de moral são diversas e polêmicas (algumas eruditas demais), definamos moral (substantivo) como o campo onde se discutem as qualificações das ações humanas. Onde se define se determinada ação é digna de status e porquê. Definamos moral (adjetivo) como a ação humana que é ou que deva ser estimulada pela coletividade, cujos autores ganhem ou devam ganhar status social ao cometê-la e sejam ou devam ser convencidos a repetí-la. Definamos como imoral toda a ação humana que é ou que deva ser desprezada pelos outros homens, cujos autores sejam ou devam ser repudiados pela coletividade, punidos pelas autoridades contituídas, etc.

É óbvio que nada disso depende de religiosidade, em geral depende exclusivamente da percepção coletiva de que determinada ação cometida por um indivíduo prejudica ou auxilia a comunidade. A definição em uma sociedade sobre a moralidade de um ato pode surgir inclusive a despeito do que prega a religião dominante: exemplar é a questão do uso da camisinha, que mesmo sendo combatido pela religião de 7 em cada 10 brasileiros não deixou de ser aceita pela quase totalidade da população como a coisa certa a se fazer.

Qual o problema quando uma religião assume para si a posição de defensora de um comportamento moral (que já existia antes que ela tivesse assumido para si, sempre)? Ela o sacraliza e o torna desprovido do caráter utilitário que o deu origem. O uso de camisinha só se tornou tópico moral porque existem doenças infectocontagiosas graves, potencialmente letais, e de difícil ou impossível cura que são transmissíveis por uma trepada. É por isso que a maioria e nós considera correto usar camisinha em relações com pessoas que não tenhamos certeza de serem soronegativas para as doenças X . No dia que a AIDS, a hepatite B e a sífilis estiverem enfim erradicadas ou não forem mais potencialmente letais o uso de camisinha deixará imediatamente de ser algo moralmente exigível (a não ser que durante o processo alguma religião tenha encontrado uma brecha em seus livros sagrados e passe a proclamar que o uso de camisinha é exigido por deus).

Moralidade é uma questão utilitária e circustancial. Definir se uma ação deve ser praticada ou não deveria sempre implicar num prévio exame sobre os seus efeitos esperados. E o incrível é que nós estamos programados para isso, naturalmente. É (em grande parte das vezes) a religião que funciona como um vírus que trava o nosso software moral e o impede de ser atualizado.

A questão das TJ’s contra o sangue é exatamente esta. As Testemunhas de Jeová são uma seita que surgiu exatamente na segunda metade do século XIX, em 1870. O século XIX foi o século em que a medicina começou a perceber a possibilidade do uso terapêutico da tranfusão de sangue. A primeira transfusão tinha se dado em 1818, mas os cientistas logo encontraram um problema com o método. Embore fisesse sucesso com alguns pacientes, levava outros a óbito mais depressa do que se não fossem tratados. É óbvio que era um método moralmente discutível. É óbvio que havia debates sobre se deviam ou não levar adiante as pesquisas. Em diversos países esta prática foi proibida.

É no meio disto tudo que surge a seita de Charles T Russell e o que ele faz é simplesmente se apropriar do princípio moral que já existia. Ora, por que as demais religiões não se apropriaram do mesmo princípio? Porque o protestantismo, o catolicismo e outras credulices não incluiram também a proibição da transfusão em seu rol de dogmas? Simples: porque as listas de dogmas destas religiões já tinham sido feitas havia tempo, é mais complicado fazer uma rasura numa lista enorme de dogmas para incluir mais um do que colocar um dogma qualquer numa página em branco que está só esperando por eles. Charles estava exatamente no trabalho de inventar o que as TJs iriam considerar sagrado, o que elas iam considerar pecaminoso, e achou por bem incluir aquela questão tão pontual da medicina da época no rol das opiniões que seus fiéis teriam que ter, a despeito das circustâncias.

Acontece que a ciência, como sempre, evoluiu. Os médicos encontraram enfim so motivos pelos quais o procedimento dava mais errado do que certo. As leis que proibiam a prática em países como França, Inglaterra e Itália cairam já que o motivo que as havia feito surgir (o fato de que o método era perigoso e muito potencialmente letal) já não existia mais. Os médicos que combatiam o uso do método passaram a usá-lo. Os pacientes que diziam que jamais passariam por tal procedimento já não excluiam mais esta possibilidade, se precisassem.

Os únicos que permaneceram contra foram os que tranformaram uma posição utilitária e incondicionalmente submissa às circunstâncias em uma questão mitológica e irrevogável sob qualquer circunstância.

É o mesmo com a questão do incesto. Provavelmente é o mesmo com a questão da homossexualidade. E com tantas outras questões morais das quais já devíamos estar livres, que pode ser que já tenham feito sentido algum dia em alguma circunstância mas que hoje já não make any sense. E que por conta de terem em algum momento do processo se tornado ponto moral de alguma religião, ainda nos afligem.


Publicado originalmente por mim mesmo no Clube Cético

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Written by Daniel

maio 19, 2011 às 12:35 pm

Publicado em Religião, Sociedade

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