Cabeção de Nego

Você escreve como um analfabeto

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Não vou contar grande novidade aqui e, a bem da verdade, nem tenho posição solidificada sobre o grande assunto do momento: o diabo do livro didático aprovado pelo Ministério da Educação. Mas existem alguns pontos que talvez não estejam ocorrendo a muitos dos que se degladiam pela WEB , defendendo ou espraguejando a bendita cartilha da discórdia.

Não li a cartilha: não sei de fato o que ensina, sob que ponto de vista aborda a informalidade no registro linguístico e a flexibilidade das normas gramaticais: os trechos reproduzidos pela Folha são rasos demais para emitir um juízo. No meu ensino médio tive um livro de língua portuguesa que dizia explicitamente que em dadas circunstâncias o uso de “normas alternativas” do idioma é o correto e que é o uso da norma culta soaria errado. Nem imagino que pudesse ensinar o contrário. E não foi durante o governo do PT, não era uma cartilha impressa e distribuída pelo MEC, mas neste ponto dizia a mesma coisa e dizia como se fosse uma informação óbvia e banal, porque é mesmo.

Se é só esta a maldição do livro: ressaltar que a língua (qualquer língua) é um ente vivo e que se modifica e que assume novas formas que são na verdade tão corretas quanto as anteriores e que é de bom tom entender a validade destes processos mutacionais linguísticos enquanto eles estão em andamento e não apenas após concluídos… eu não sei o porquê da briga. Pelo mesmo motivo que não entendo os puristas antiestrangeirismo.

Entenda meu colega douto e completo dominador da norma culta e pura da esplêndida última flor do Lácio: o seu idioma genuíno e doutíssimo é todo copiado de outros idiomas e carrega uma vastíssima herança de analfabetismo e ignorância. Eu sei que para a maioria isto é óbvio demais, mas nem todos entendem que  praticamente todas as palavras portuguesas já foram, em dado momento, termos estrangeiros: a depender da época vindos do latim, do árabe, do castelhano, do inglês, do francês, do iorubá, do banto, do japonês, do inglês de novo… isto não matou o idioma: o fez nascer e o formou como os conhecemos hoje .

Já sei, o tema não é esse, mas é correlato: porque foi também o analfabetismo dos nossos antepassados que criou o inculto “você” a partir de um então rebuscado “vossa mercê” (eu bem já disse que não vou contar novidade alguma, não me peça exemplos mais originais) e fez com que as conjugações mais usadas dos verbos mais usados ficassem minúsculas e mais fáceis/rápidas/práticas (“vou”, “sou”, “é”… ou você pensava que os verbos irregulares tinham surgido por acaso?). Implicar com o “cê” ou ou com o “tô” ou com “ondicevai?” faz tanto sentido e vai provavelmente dar no mesmo esgoto que as implicâncias do tataravô da sua tataravó contra a modernidade analfabeta que era o “vósmecê”.

Por outro lado a gramática normativa tem sim importância: e esta se manifesta em evitar que as mutações linguísticas ocorram num ritmo acelerado demais; em paramentar idéias mais complexas, que dependam de uma gama mais ampla e estruturada de recursos sintáticos e semânticos e retóricos; em permitir que indivíduos nativos de regiões com dialetos diferentes (gaúcho X cearense/ favelado paulista X playboy floripense/português dos Açores X brasileiro dos Tocantins) possam se comunicar razoavelmente bem quando precisarem; em servir como ferramenta para que mensagens coletivas endereçadas a pessoas que estão habituadas a dialetos diferentes sejam eficientemente e homogeneamente difundidas.

A consciência de que existem diversas modalidades linguísticas e de que dentro do processo de evolução do idioma elas são importantíssimas e que em determinadas situações elas são até mais adequadas não implica desvalorização à norma culta e formal. Assim como a constatação de que um amplo e relativamente sólido portfólio de regras sintáticas, lexicais, ortográficas e semânticas é necessário em determinadas situações de comunicação e que o aprendizado desta coletânea de normas é desejável e em alguns casos até exigível (se você quiser ser engenheiro/médico/biólogo ou qualquer outra coisa que não jogador de futebol/cantora de funk /deputado federal) não representa necessariamente preconceito.

E no fim das contas eu acho que nem está ocorrendo um debate de fato: é só que metade da websfera cismou de dizer que 20/5 é 4 enquanto outra metade bate o pé que na verdade é 4X5 que é 20 e, claro, esta diferença de ênfases parece ter um forte componente político-partidário, bem mais do que linguístico-pedagógico.

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Written by Daniel

maio 18, 2011 às 11:46 pm

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