Cabeção de Nego

Zé Ninguém de Oliveira

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Já lá pelos idos do Rio de Janeiro de 1950 labutava diariamente no luxuoso bairro de Ipanema um lavador de carros como qualquer outro: franzino, inglório, mal afeiçoado, com toda a cara de pouca coisa na vida, ou até um pouco menos que isso. Morador de uma distante favela nos cocorutos do subúrbio carioca, mestre em uma profissão típica daqueles que não tem qualquer profissão: ora, podia vender balas ou entregar jornais que tanto lhe fazia, seria mestre do mesmo modo.

Podemos visualizar esta indigna personagem pelo viés da sua pobreza, dos seus ternos desbotados e de corte ultrapassado; de seus calçados surrados e permanetemente sujos da argila ainda não coberta de asfalto da favela em que vivia, alí nos arredores da Tijuca; dos seus dentes provavelmente não tão bem brancos como mandava a boa etiqueta.

Mas hoje de manhã enquanto meus ouvidos me lembravam dele, eu o observei pelo reflexo obtuso do olhar dos outros. É claro que eu não sei mesmo qual era o olhar dos outros em relação a Zé Ninguém, admito sim que o estou inventando, não vivi de fato com ele: mas conheço muitos de seus xarás: a menina da faxina, o gari, a auxiliar de enfermagem, o subalterno qualquer…

Será que as suas abusadas opiniões, provavelemte tímidas, sobre a qualidade da composição de Bilac eram ouvidas pelos donos dos carros que lavava. Será que ele ousava tocar nestes assuntos? Não tem aquele tipo de gente que a gente já presume que não saiba e que não tenha nada a dizer? Pois eu desconfio que era ele: o “ele não entende deste tipo de coisa, coitado” em pessoa. Sobre a qualidade do futebol de Zagalo, acredito, ele até era convocado a opinar e apresentar seu conhecimento: mas será que era isto que lhe interessava, mesmo? Ou só isso?

Status é uma bússula fajuta: até pouco tempo eu achava que todos os médicos fossem cultos, este é um status da carreira, foi preciso passar a trabalhar com alguns deles diaramente para perceber que estava profundamente enganado.

E fico aqui imaginando que nível de respeito Zé Ninguém recebia, o quanto do saber e da cultura e da genialidade de Zé Ninguém de Oliveira era reconhecida pelos seus clientes motorizados? Ou quanto lhe era sequer permitido evidenciar? Talvez eu esteja sendo precipitado e apenas externando meus próprios preconceitos, talvez.

Mas é que hoje eu estava ouvindo um Zé Ninguém de Oliveira que só aos 48 anos virou Angenor Carlos Cartola de Oliveira, depois de ser “descoberto” por um jornalista enquanto lavava o carro de um doutor e fiquei me encafifando: como, de que bizarro modo, se leva tanto tempo para se perceber que o cara que lava o seu carro todo dia é um dos maiores gênios que o bondoso Acaso deu à Humanidade?

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Written by Daniel

maio 13, 2011 às 10:07 pm

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