Linux é difícil
Há quase dois anos meu Windows Vista Starter Edition estava com tanto, mas tanto vírus, que eu resolvi correr o risco da minha vida: aprender a instalar Linux no PC, meia hora de googladas e acabei escolhendo o famosão Ubuntu mesmo, em Dual Boot, tinha muitos arquivos importantes: uma coletânea enorme de filmes pornôs e um bocado de discografias nas pastas XXX e Music, e perdê-los ia ser um desastre: particionei o HD, meti o cd na gavetinha, e para minha primeira surpresa “eita, mas isso foi mais fácil que instalar o Mozilla, uai”
Ahhh, o Maverik Merkat, ahhh a fase das descobertas. É claro que quem vai iniciar no uso de qualquer distro Linux vai sentir algumas dificuldades: o botãozinho do Firefox está lá e pra abrir é igualzinho: dois cliques, mas como configura a internet? esta janela tá muito feia, não tem como mudar a cor? cadê minha partição de música? dá pra decidir como se instala um programa? vai de terminal ou via central de programas? compilar? por que meu arquivo .rtm não tá funfando? que diabos é uma distro?
Com a passar de uns 2 ou 6 meses uma pessoa normal já não terá estas dificuldades mais básicas, e a partir daí… bom, a partir daí também não é um sistema operacional sem nenhum defeito, é possível que meia dúzia de dois ou vinte recursos nativos em Windows não estejam lá, é possível que nas versões mais recentes de cada distro você perceba alguma instabilidade, mas no geral Linux ganha de goleada do seu concorrente de código proprietário. Começa pelo fato de em Linux não existir versão Starter Edition ou Home Basic. É claro que este não é um problema para quem está habituado aos KATs e Pirate Bays da vida, mas suponhamos que você não queira correr os riscos de segurança de usar uma versão hackeada, ou que seus valores éticos lhe digam para não fazê-lo. Imagine que sua mãe foi lhe comprar um PC novo e voltou toda feliz dizendo que tinha pago mais caro mas que tinha valido a pena porque este era o Windows 7, que o vendedor disse pra ela que era o mais moderno, e quando você desempacota é o 7 SE, que não te permite trocar o papel de parede, que não te permite gerenciar uma conexão do computador do quarto com o da sala, que não te permite aumentar a memória em mais que 2 gigas… que paunocú, né Microsoft?
Pois é, em Linux é sempre a versão Ultimate que você recebe, é você quem decide quais funções estarão habilitadas ou não; existem sim funções nativas em Windows e inexistentes (ou que eu ainda não descobri) em Linux, mas o inverso é muito mais verdadeiros. Os ambientes gráficos em Linux são muito mais robustos que o shell do Windows (e mesmo assim rodam mais macio). Em Linux também não existe o conceito de hardware obsoleto, o hardware em Linux fica obsoleto apenas quando estraga mesmo, tipo: dá curto ou o hd queima, mas não porque o desenvolvedor não fornece atualizações para aquele PC. Existem diversos projetos de Linux destinados a dar um gás sempre novo nos PCs mais cacarecos que existem, tipo: coisa que roda com 128 de RAM num Pentium III, e fazê-los dentro da medida do que aguentam rodarem macio programas modernos e receberem atualiazações de segurança periódicas. Compatibilidade é um problema cada vez menor, até porque se seu computador for relativamente novo você pode contar com a mão na roda Wine.
E rodar um SO imune a vírus? Bem, algum linuxer chato vai acabar lembrando que Linux não é imune a vírus… sim, não é, mas também não pega: as propriedades de segurança são tão bem feitas pelo pessoal que entende de código (não sou eu) e que gera as distros Linux que para o usuário final (esse sou eu) basta seguir meia dúzia de normas básicas (como não instalar programas de fontes “alternativas” ou não navegar pela internet logado como “root”, uma senha especial que você só usa para executar tarefas mais cabeçudas e perigosas) que pronto: você pode desfrutar da mais livre, se é que você me entende, das navegações sem medo de pegar qualquer tipo de gonorréia cibernética.
Linux é mais funcional que Windows, é mais bonito (a depender de suas configurações) que Windows, é mais versátil que Windows, é mais leve que Windows, é mais democrático que Windows… ainda não entrei no clube dos que chamam Windows de Ruindous, até acho que em um ponto ou outro o sistema da Microsoft leva vantagem. Mas se você experimentar o pinguin e usar uma balança bacana acho que você não vai mesmo querer saber das janelinhas coloridas depois.
Vale a pena uns meses de perrengue e aprendizado.
Ps.: ainda tenho o W7 e não aconselho que você delete o seu, nunca se sabe quando vai precisar ;P .
Ouvindo: Jailbreak, do AC/DC
Adorei as almas!!!
Hoje é dia de preto velho, um conjunto de entidades simpáticas da umbanda representadas por senhores e senhoras negros com feições de avós cheio de experiência de vida e bondade acumulada. Well, não sou de umbanda, não sou de candomblé, não sou de tuque tuque nenhum e não adoro às almas, existam elas ou não. Mas saber desta data comemorativa me lembrou de uma das muitas canções que fazem parte da trilha sonora cabal da minha vida. O poema de João Ricardo é sintético e diz:
“Aquele Preto, tão Preto/co’aquela barba branca, tão preta/e aquele olhar tão negro/de quem espera ganhar/um sorriso incolor” e acaba por aí.
Bela ode a desimportância da raça: a descrição tão firme da negritude do preto velho, a ênfase acentuada pelo contraste de sua barba outrora também negra e agora totalmente desbotada, a repetição insistente de que a personagem homenageada é preta, tão preta e de um olhar, para “piorar”, tão negro é só para revelar, no último verso, que todos estes detalhes são irrelevantes e que tudo que o negro em questão merece é receber um sorriso que não leve em consideração esta desimportância toda, mas toda a sua ternura e sabedoria, é o tal do sorriso incolor que só o poeta poderia nomear tão bem.
Não ria!
Eu estou meio ranzinza pra humor nos últimos tempos, não sei se é sintoma da velhice, não sei se é efeito colateral do excesso de memes de graça duvidosa que tomaram conta da internet e da febre de comediantes “em pé” pra tudo que é canto, mas acho que meu sensor de piadas estragou. Não tenho conseguido rir nem das brigas entre o Kiko e o Chaves, quer dizer: o bagulho é sério.
Mas acho que ainda sei reconhecer uma boa piada, mesmo que não ria dela, e a piada do Rafael Bastos fazendo uma brincadeira com diversos significados da palavra “retardo” é boa, vai.
Em primeiro lugar usar “retardo mental” no lugar de “deficiência cognitiva” não é errado. A APAE ou boa parte das mães de pessoas com deficiência cognitiva podem não gostar do termo retardado, podem preferir “especial” mas por outro lado existem enciclopédias e cientistas que gostam do termo e não veem nada de errado com ele. Parece que o Ministério da Saúde do Brasil também não têm problema com essa nomenclatura, tanto que é assim que nomeia as pessoas “especiais” tratadas pela APAE: como portadoras de uma condição clínica chamada Retardo Mental: ora bolas, doenças têm que ter pelo menos um nome, ruim é a doença, não o nome ou o doente.
De qualquer modo, direito da APAE não gostar do popular, universalizado, claro e dicionarizado termo Retardo Mental (e de seus cognatos): eu também tenho implicância com algumas palavras, não gosto por exemplo de “transar” porque acho um modo meio de mãe classemedista católica romana dizer que a filha tá dando mais que xuxu na horta “sem pegar mal”, tipo uma gíria careta, sabe?
Pra mim “transar” rima com hipocrisia, embora eu tenha sim aprendido já lá no primário que isso á impossível. Também não gosto de “fazer amor”: prefiro foder, fuder, fazer sexo, dar umazinha, trepar, furunfar, meter, trocar o óleo, fazer um rala e rola. Mas nem por isso vou sair processando as mães que insistem na merda de dizer orgulhosas que “suas filhinhas ainda não estão transando (urrrgh) com os namoradinhos”.
Em segundo lugar Rafael Bastos não inovou no modo de fazer humor, e isso vai em sua defesa, desde que acho que sou gente que uma das formas mais usadas para fazer é humor é meter dois termos foneticamente parecidos ou idênticos, mas com significados distintos, um mais “leve” outro mais “pesado”, em uma mesma história… e misturar os significados dos dois na cabeça do ouvinte, causando uma breve confusão na sua mente, que é exatamente o que, após resolvido, vai provocar o riso. Melhor ainda se houver algum elemento sexual na história. Foi isso que o Rafael fez com os significados de retardado (portador de retardo mental) e retardado (demorado) e com sua alusão ao seu melhor amigo e companheiro de todas as horas.
Quanto à piada com aquela cantora insossa de músicas bregas rebolativas filha de um cantor desafinado e mais brega ainda eu não tinha era entendido a piada; até agora não entendi: ele comia o bebê porque ao comer a mãe estava socando dentro do receptáculo onde ora estava a criança? Ele comia o bebê porque ao cometer um ato bárbaro como comer a mulher de outro cara, ainda por cima estando esta grávida, ele se demonstrava um ser abjeto e imoral destes que comem criancinhas, tipo ateus e comunistas? Ele comia a Wanessa e o bebê porque ele não tinha nada pra falar na sua “deixa” e falou qualquer merda? De qualquer forma não era caso pra censura.
Agora, essa aí? Se ele ainda tivesse feito alguma insinuação de que portadores de retardo mental devam ser mortos… ou pelo menos agredidos, mas não, “Usei camisinha com efeito retardante e tive que internar meu pênis na Apae. Tá completamente retardado hoje em dia” é tão ofensivo às crianças “especiais” quanto ”Usei camisinha com efeito refrescante e tive que dar Apracur pro meu bilau. Hoje ele acordou completamente resfriado” é ofensivo aos gripados.
Sheeps (some different ones)

What do you get for pretending the death is not real?
A mais bela cena de casamento da ficção
Björn Borg é um ídolo do esporte na Suécia, ganhou 5 vezes seguidas o Torneio de Wimbledon e outras 6 vezes conquistou o Aberto da França, um dos maiores tenistas da história.
Se no Brasil nomes como Guga e Senna são usados para batizar marcas de calçado e de roupa infantil, na Suécia a confiança nacional depositada no nome do herói Borg foi aproveitada por uma grife de roupa íntima, é claro, lhe pagando os devidos royalties.
Em 2008 esta grife resolveu veicular uma campanha publicitária ambientada em uma cena de casamento, talvez intencionando uma associação sublimnar com a noite de núpcias.
Fato é que a construção feita pelos publicitários foi de uma ternura, de uma perfeição nos detalhes, a emoção genuína e a expressão precisa dos atores (em dado momento, quando a moça entrando triunfante na igreja faz um aceno com a cabeça em direção aos convidados, eu não consigo evitar de responder, instintivamente, ao cumprimento), a luz matinal de um sábado ensolarado invadindo a arquitetura da catedral evangélica, o orgulho evidente dos convidados em terem sido escolhidos para partilhar da felicidade dos noivos, a felicidade mútua captada em close, a falta dos dentes de leite no sorriso da daminha de honra, a marcha nupcial…
Tudo neste casamento é tão perfeitamente disposto, que você percebe que existem alguns detalhes que são absolutamente insignificantes e que nós nos arriscamos a estragar a beleza de tudo se pensamos muito neles.
Pois é só de Gustav Mahler que se faz a vida
Eu não sei quanto à sua, de quantos medos e prazeres e, sobretudo, de quais medos e prazeres: sei também que não nasci ao som da feiura perfeita de um Miles Davis, e foi absoluta falha minha, da qual sei que jamais merecerei perdão. Mas é de álcool, e é de vida, e é de tentar perder medos e abandonar anseios… não vou te acompanhar, desculpe-me. Vá sozinha, não: eu vou sozinho; vá com quem melhor lhe apraz, com quem melhor lhe couber, com quem topar… pouco me importa.
É porque ontem eu ouvi que não precisava fazer sentido e eu achei que não e apostei de verdade que, muito ao contrário do que vocês pensam, para Marcel, uma roda de bicicleta ou um mictório faziam, e eu juro por deus, todo o sentido, todo o sentido do mundo.
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Se não fossem estes exatos 11 minutos e 43 segundos o que teria sido da minha vida? Revele-me o que teria sido dela sem aqueles outros 11’49”.
Não é que nada tenha sentido, não é esse niilismo tão intenso quanto o único que você consegue compreender, é só que eu não preciso inventá-lo, o Diabo do sentido.
Em quê a beleza de um Mahler? Em quê a feiura explêndida de um Davis? Em quê este mundo maravilhoso, indecifrável, sublime, imenso… falha? Por que eu precisaria de mais que Davis, Mahler e uma dose de Ballantines, para compreender a essência do quanto eu ainda for?
Ouvindo Feio* de Miles Davis e Trauermarsch (5. Sinfonie) de Gustav Mahler: bebendo algumas latas de Antarctica. Esperando a vida chegar de volta do trabalho.
Ordens do castelo
Paulo amava Felipe
que amava João
que amava Antônio
que amava João Paulo
que nunca amou ninguém.
João Paulo
que é o chefe da quadrilha
não quer ninguém falando de amor no ouvido dele.
Esta releitura homoafetiva da Quadrilha de Drummond tinha sido feita por mim para homenagear o futuro santo católico, Karoline Wojtyla.
O polaco e o germano
Com a recém beatificação do papa que lutou na Segunda Grande Guerra do lado dos aliados eu fico pensando: que raios de título cairia bem em Karoline Wojtyła? Será que os responsáveis pela criação dos falsos milagres que comprovarão que João Paulo é santo já pensaram nisso? Considerando que enquanto ainda atormentava o planeta dos vivos, João Paulo II era um ferrenho propagandista do não uso da camisinha, acho que seria um bom padroeiro dos aidéticos e dos filhos indesejados: fica aí a dica.
E por falar no papa aliado, quando tempo vai demorar para que comece o processo de canonização do papa que se enfilerou nas alas da juventude hitlerista? Eu fico torcendo muito para que o processo se inicie logo, sobretudo quando me lembro de que o primeiro passo para o início dos trâmites é que o dito cujo vá pro raio que o parta.
Mas será mesmo o Benedito que quando Ratzinger decidir transformar o mundo em um lugar definitivamente melhor (desaparecendo para sempre dele) haverá algum católico doido o suficiente para declarar a sua santidade?
Por mais das dúvidas, santo eu não sei se ele vira, mas o título está no papo: padroeiro das travecas enrustidas e dos molestadores de crianças.
Muitas claps para Tim Minchin
Tim Minchin é um tipo australiano um tanto quanto bizarro: uma espécie de Jack White do cabelo parafinado com chapinha de olhos esbugalhados: costuma ser pianista e humorista e compositor e dramaturgo e piadista stand up e ateu e cientificista e racionalista.
Grande parte do tempo que ganhei assistindo vídeos do Youtube até hoje foi vendo e revendo os vídeos deste ruivo nerd de Perth. Aí abaixo alguns dos seus vídeos, incluindo Storm, que é ambientado em uma daquelas agradáveis conversas que com certeza você já teve com algum espiritualista cristão natureba vegetariano zen, e que acabei de assistir pelas primeiras vezes através do Portal Ateu.
Com vocês, Tim Minchin:
Fazendo uma aposta impossível de perder:
Em uma música que fala de como é o seu Natal, que foi gravada especialmente para uma destas coletâneas promocionais de final de ano, e que, claro, não foi aprovada pela comunidade cristã australiana (provavelmente por ser humana demais, e por evocar bons sentimentos que não duram apenas por uma noite, mas a vida inteira):
Em uma justa homenagem ao Papa Ratzinger, o santo protetor dos molestadores:
E no realmente fantástico Storm:
Que tal um copinho d’água, einh?

Imagine que haja uma escola terapêutica que ensine que o médico não deva prestar muita atenção às doenças em si, mas aos seus sintomas. Pouco importa que aquela sua sequência de vômitos seja originária de um tumor , de um infecção bacteriana ou de uma hérnia de hiato: se os sintomas são vômitos recorrentes há uma semana então a forma de tratá-los é por suposto a mesma.
Imagine que o tratamento indicado para conter suas crises de vômito causadas sabe lá por que seja uma dose diária de algum emético (droga que faz vomitar) diluida em muita água.
Imagine que o farmacêutico encarregado de fabricar este medicamento se limite a colocar uma gotinha do emético em uma garrafa de 1 litro cheia de água e dê umas saculejadas na garrafa e que depois disso pegue um copinho de plástico contendo a água da primeira garrafa e coloque o conteúdo em uma nova garrafa com mais água pura, dando uns sacolejos nela novamente. Imagine que após 3 ou 5 repetições deste processo o farmacêutico adicione cerca de 20 ml de álcool puro na última garrafa de água, antes de dividir o conteúdo em frasquinhos.
Imagine que na botica deste farmacêutico o remédio para fazer vomitar e o para parar de vomitar e o para fazer evacuar e o para segurar o intestino quando submetidos a análises laboratoriais tenham todos exatamente a mesma composição química e quando submetidos ao nariz nú tenham o mesmo cheirinho de água da bica com um pouquinho de álcool.
Imagine se esta bodega toda deve ser levada a sério.
Agora dê um oi para a homeopatia.


